Gente grande, afago parco.

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Ilustração: Masha (Instagram: @mad.robin)

Dos medos da infância, o menor, mas não menos importante: papai Noel. Entrava em pânico quando era posta diante de um! Mas adorava ganhar presentes…

Na casa do tio Zé Carlos, era tradição que os presentes fossem entregues pelo bom velhinho, mas não sem antes ouvir das crianças uma oração, qualquer que fosse. Afinal, era preciso provar que éramos “bons meninos”. Independente disso, o colinho de mãe era uma certeza. E era o bastante. Minha mãe, que cheirava a cremes e cigarro, estaria lá para lhe tirar a máscara e me mostrar que por detrás daquela cara horrível de papai Noel, havia um ser humano: – Viu filha? É uma pessoa! – e por dentro, eu: “Ufa! É uma pessoa.”.

Com o passar dos anos os medos só mudam de lugar. Medo do fracasso. Do atraso. Medo de ficar sem saber. Medo de nunca mais sentir entusiasmo. E de nunca mais conseguir sair da clausura da alma e do corpo. Medo de não conseguir ler todos os livros desejados ou não conseguir visitar todos os lugares planejados. Medo de não ser perdoada a tempo. Ou de não conseguir perdoar. Medo de não ser amada ou de não encontrar alguém para amar. Ou ainda, de nunca mais querer tentar. Em suma, o maior dos medos, aquele que contém e sintetiza todos os outros, é o medo de não ter tempo! O mesmo capturado pelas fotografias, eternizado em forma de momentos.

Da infância à vida adulta, as diferenças provêm do fato de que hoje, na maior parte dos dias, as circunstâncias nos obrigam a estar ali, com os pés fincados no chão. Sem colo de mãe, o trabalho de retirar as máscaras fica sendo exclusivamente nosso. E encontrar o ser humano por detrás delas deixou de ser alívio indubitável. Quanto às orações, são ainda mais frequentes! Com a diferença de que, agora, o objetivo é o de conseguir coragem, porque ainda somos a criança que adora ganhar presentes, mas aprendeu: nada se conquista nesse mundo sem que enfrentemos a nós mesmos.

 

Liah Capucho

Escrito em 15 de março de 2015.

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III. Sobre Lídia, Thomas e o desassossego.

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Ilustração: David van der Veen (@davidvanderveen)

 

Era fim da tarde de sábado quando Lídia sentou-se a uma das mesas de cimento  que ladeavam a ruela principal, fazendo as vezes de uma calçada delimitada por cerca viva repleta de graxas vermelhas. As nuvens que se acumulavam tornavam o dia mais escuro do que o usual para o horário. Mesmo assim, a moça mantinha-se debruçada sobre seu caderninho de notas, concentrada em seus escritos e ignorando tanto a penumbra quanto o ir e vir das pessoas. Lídia gostava de anotar observações e insights que surgiam aleatoriamente. Achava importante colocar tudo no papel, como se as palavras fossem peças de um grande quebra-cabeça – muito mais fácil de ser resolvido quando do lado de fora da sua.

Distraída, sobressaltou-se quando Tales e Fabiana decidiram se juntar a ela, sentando-se à mesa. Mal teve tempo de recuperar-se e dar as boas vindas ao casal quando Thomas, esbaforido, aproximou-se, quase correndo. Cumprimentou a todos com um único aceno, tentando recuperar o fôlego, enquanto Lídia perdia o dela. A pobre moça sentia-se como uma criança que acabara de se lambuzar ao tomar um sorvete e não sabia o que fazer, nem para onde olhar, ou como disfarçar o rosto sujo. Thomas pediu permissão para sentar-se, ao que todos aquiesceram.

Um pouco menos ofegante, mas ainda muito agitado, Thomas iniciou uma conversa com Tales enquanto folheava e rabiscava uma agenda que trazia consigo. À Lídia pareceu continuação de assunto surgido na noite anterior, quando os dois amigos encontraram-se para sorver alguns chopps. Thomas revelou que decidira, por fim, comprar seu próprio violão, já que os instrumentos e horários disponíveis na sala de música não lhe pareciam suficientes. Tales apoiou a decisão e os dois logo iniciaram uma discussão sobre marcas e modelos ideais, ponderando, claro, acerca do melhor custo-benefício. Enquanto isso, Lídia mantinha sua cabeça baixa, olhos fixos em seu caderno, e mesmo tendo perdido a ciência do que escrevia, continuava desenhando letras no papel. Vez ou outra olhava para Fabiana, trocando uma ou duas palavras, fazendo planos para o jantar. Afinal, aquela seria a última noite de Feira, e precisavam se despedir adequadamente – palavras de Fabiana, que providenciava uma longa lista de ingredientes para as receitas que escolheu preparar.

Nesse ínterim, onde as conversas fluíam paralelamente, Thomas lançava olhares às moças. Via-se intrigado por não encontrar em Lídia postura condizente com a que assumiu no dia anterior. Como que para pôr à prova o que lhe pareceu indiferença, decidiu interrompê-las e indagar: – E você… É Lídia seu nome, certo?… O que pensa a respeito? – Ela já tinha perdido o fio da meada há tempos, mas arriscou: – Eu acho ótimo que você tenha seu próprio violão. Assim poderá compor quando quiser. Pode mantê-lo ao lado de sua cama e pegá-lo sempre que a inspiração te visitar.

Thomas ficou ainda mais intrigado ao perceber que Lídia pôde adivinhar sua insônia. Pensou que, talvez, durante a tal Conferência ocorrida há alguns anos, ele pudesse ter mencionado isso a ela, mas não podia se lembrar. E mesmo que esse tenha sido o caso, era espantoso que Lídia pudesse! Enquanto esses e outros pensamentos lhe vinham à mente, para alívio da moça a quem fitava quase sem piscar, Fabiana sugeria que todos procurassem seus aposentos para lavarem-se e descansarem um pouco antes do jantar. Thomas, que tinha planos de encontrar outros amigos antes disso, seguiu na direção oposta, mas seu estado de espírito convergia ao de Lídia, que caminhava muda, introspectiva, na direção do alojamento.

* * *

Apesar de provirem de naturezas distintas, as inquietações de ambos se justificavam. Thomas era muito inteligente, mas desatento. Péssimo leitor das entrelinhas. Era acostumado às atenções das moças em geral, mas isso não o teria transformado num perito em comportamento feminino. Tampouco num cara cheio de si, a ponto de acreditar que era impossível uma moça como Lídia ser indiferente a ele – embora tenha sido indiferente às “Lídias” que cruzaram, inconspícuas, o seu caminho. Mas a vaidade humana trabalha em segundo plano, abaixo da superfície, coberta pelo que chamamos de ‘consciente’; e ainda que só conseguisse pensar que talvez a tivesse ofendido de alguma forma e tentasse revisar cada passo do dia em sua mente a fim de encontrar um tropeço qualquer, o que aparentava real preocupação com os sentimentos de Lídia era, na verdade, seu ego pirraçando no quartinho dos fundos.

Já Lídia, tinha por natureza o mesmo hábito cultivado pela maioria das pessoas taciturnas como ela: o hábito da observação. Observava atentamente cada cena, cada diálogo, cada pessoa que atuava no palco de sua rotina. Em seguida, imprimia profundo pensamento analítico em cada acontecimento. Naquela tarde, não foi diferente. Apenas que o protagonista, dessa vez, era Thomas. Um personagem sobre o qual ela não tinha nenhum controle, nenhum entendimento. Tornava-se incapaz de ser precisa após cair no vórtice de sensações ao qual era impelida sempre que o moço a orbitava. Em meio à confusão, um pensamento persistia e beirava a indignação: não teriam sido seus gestos claros o suficiente quando tentava evitar uma conversa? O que levou Thomas a violar seu direito ao silêncio? Ao mesmo tempo, tentava se lembrar do tom de voz que teria usado ao respondê-lo e questionava-se se teria sido ríspida ou entregue demais. Temia também não ter sido minimamente educada e com isso tê-lo afastado. Enquanto isso, no quartinho dos fundos, seu inquilino regozijava-se com a ideia de que a postura de Thomas foi, na verdade, uma tentativa desesperada de ganhar a sua atenção.

Liah Capucho

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II. Sobre Thomas, a Feira e a pia crença no mero acaso.

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Obra de autor desconhecido. Via: Pinterest.

 

Enquanto Lídia o observava, quase sem saber se devia ou não cumprimentá-lo, caso seus grandes olhos azuis encontrassem os dela, Thomas falava e ria rodeado de amigos e (muitas) garotas. Comunicativo e requisitado – mal sabia a quem dar prioridade – não demorou muito a avistá-la na varanda de madeira envernizada, sob a marquise, ao lado do cavalete. Passou a mão nos cabelos castanhos e despenteados, franziu o cenho na tentativa de enxergá-la melhor e, ao mesmo tempo, lembrar-se de onde conhecia a moça de cabelos lisos e descuidados, ornamentada em branco, marrom e cáqui, e que o fitava com olhos tímidos e apreensivos, por cima do livro que segurava.

Ela decidiu acenar. Um aceno tímido acompanhado de um “oi” inaudível, tanto pela distância que os separava, quanto pelo amontoado de vozes ao redor e ao ínfimo volume que ela conseguiu dar à sua. Ele, então, pediu licença aos amigos e foi se aproximando devagar, curioso. Ao ver de perto o embaraço dos ondulados cabelos de Thomas, Lídia esqueceu-se do seu, e perguntou: Não se lembra de mim? – Como ele mantinha um grande ponto de interrogação em sua testa franzida, ela tratou de ajudá-lo: Sou amiga de Tales e Fabiana. Nos conhecemos em… – Foi interrompida: Ah sim… Claro! – E ele então abriu o mais encantador dos sorrisos, enquanto comentava com um amigo que acabara de alcançá-lo: Essa é aquela menina de quem falei, “fulano”. Aquela que… – Lídia não pôde escutar. Tamanho o tumulto fora e, principalmente, dentro de si. Mas logo presumiu que o comentário tinha sido sobre algum feito acadêmico seu, ou algum auxílio que porventura tenha dado a ele à época da Conferência. E meu Deus: como odiava ser chamada de “menina”! Feito isso, o moço repousou a mão sobre seu ombro, a cumprimentou com um “prazer em revê-la!”, e virou-se para misturar-se novamente à multidão. Assim que afastaram-se, ouviu de seu amigo: – Moça bonita, essa Lídia… É certo que lhe falta algum tempero, mas é bonita! – Thomas apenas olhou para ele e sorriu, envolvendo seu pescoço com o braço esquerdo, a fim de que apressassem o passo.

Thom, como era conhecido, chegara ao Distrito três dias antes. Afinal, qual o problema em cabular algumas aulas no fim do semestre, especialmente quando essas aulas seriam ministradas pelo professor mais insosso e engessado que já teve o desprazer de conhecer na vida? Além disso, a overdose de cultura e boemia que conseguiria com os dias extras na Feira compensaria qualquer ausência de estudo regular: O Empirismo, meus caros, é a única forma de encontrar as respostas que realmente importam! – dizia. Sob esse princípio, passava as tardes na rua e as emendava com a noite, quando sentava aos balcões com os amigos para apreciar o chopp de primeiríssima qualidade que os grisalhos bartenders serviam, em tiragem perfeita, de chopeiras antigas em madeira nobre e torneiras do tipo italiano. Quanto à sua aparência, era o retrato fidedigno de seu temperamento: um misto de beleza e caos, de delicadeza e desleixo. De doçura e indiferença. De extrema inteligência e inconsequência. Comia e dormia mal, à hora que lhe aprouvesse. A camisa puída e de manga curta, antes alva, agora amarelada e amarrotada – mas muito bem abotoada! – não cairia bem em qualquer outro rapaz, a não ser que este fosse o descabelado Thomas, de 26 anos e olhos amendoados, de quem Lídia jamais se esqueceria. Ele, ao contrário, não mais pensou na moça. Não naquele dia.

Liah Capucho

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A verdade quase nua

  1. Carta ao amor quase recíproco

Meu caro amigo,

Você se mudou há cinco cartas e há cinco cartas tenho criado pretextos e imprevistos, todos os dias, para não respondê-las. Perdoe-me, meu querido, se te desapontei e se te pus ansioso, ou preocupado. A indignação no tom da sua escrita e na expressão da sua caligrafia – sempre tão bonita, e agora, itálica – se justifica. Mea culpa! Devo dizer que se tivesse escolhido ser bem menos cordial em sua sexta tentativa, eu acataria cada dura palavra cheia de direitos seus; egoísta que sou!

Os eventos que se seguiram à nossa despedida não foram muitos, mas você há de se espantar ao saber que, desde então, tenho me dedicado a filmes blasé e a livros chinfrins, ambos com histórias pouco elaboradas e romances aguados. Sua ausência tem me sobrecarregado e meu intelecto parece querer descanso. Ler um livro fácil, que não exija raciocínio, tem sido como exercitar o lado carente, que só quer sentir, e nada mais. Aquele lado que apenas intui, e se joga!

Consigo te imaginar gargalhando ao ler as linhas seguintes, mas meu orgulho, mesmo ferido de morte, deve admitir que você sempre teve toda a razão: eu tenho uma enorme capacidade de ignorar-me. Mas sabe, meu caro, uma situação cômoda pode aprisionar uma pessoa por anos a fio, sem que ela perceba. E é uma delícia viver a ausência do compromisso, das obrigações, e do gasto de energia que o risco nos exige. Nesse processo, a automatização de nossos atos é inevitável. Quando se vê, passaram-se anos e tudo o que fizemos foi ignorar uma de nossas metades. A metade que carece. Aquela que se arrisca.

Você não acha engraçado o fato de que me foi preciso perder o seu colo para que eu voltasse a olhar para dentro? Seria cômico se não fosse trágico, Cinho… A verdade é que eu me agarrei a você como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira no oceano, ou como alguém que, durante a tempestade, se agarra ao guarda-chuva. A verdade é que a nossa relação acabou por se tornar um escudo sob o qual eu me protegia de qualquer outra que pudesse ser menos perfeita. E assim o foi desde o dia em que trocamos as primeiras palavras (lembra?): você de passagem e eu abrindo caminho pra você continuar. E você passou. Não antes de me dizer as palavras mais lindas que já escutei de um completo estranho. E me olhou nos olhos, bem no fundo dos olhos. Tão profundo quanto o azul daquele mar que nos assistia, boquiaberto. Uma sintonia imensa e imediata! Como num reencontro de almas, velhas conhecidas.

Confesso que às vezes culpo o destino por ter me trazido à razão, ou à emoção (?), sob efeito tão demorado e com resultado tão tardio. Mas logo reconheço que entre nós nada poderia ser diferente. Minha missão sempre será abrir caminho para que você, de passagem, possa continuar. E digo, sem medo algum de exagerar, que não há nada que me deixe mais feliz nesse mundo do que assisti-lo prosseguir! Portanto o fato, meu amigo, é que ao destino devo mais gratidão do que rancor, pois ter me levado a você pode ter sido uma forma de me dizer que eu ainda sinto, e que um dia, talvez, e só quando não mais temer o possível, eu possa amar por inteiro novamente.

Sua, sempre,

Cecí.

P.S.: Finalmente pus pra tocar aquela cassete que você gravou pra mim…

Composição: Aloysio de Oliveira/ Antônio Carlos Jobim

 

Liah Capucho

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I. Sobre Lídia, a Feira e o acaso. Acaso?

Michael Mao ,Chinese (MODERN ARTS)

Obra do pintor chinês Michael Mao (Arte Moderna via: Atalanta Arts Gallery)

 

Numa tarde nublada e úmida de sexta-feira, Lídia chegou, exausta, ao alojamento. A viagem tinha sido longa, estressante – condição agravada pela ansiedade que sentia com relação ao evento que participaria. Apesar do cansaço, jogou sua pesada mochila em uma das camas do quarto, que dividiria com um casal de amigos, deixando apenas seu inseparável embornal pendurado no ombro esquerdo e, sem ao menos avisá-los, apressou o passo em direção à porta de saída do modesto edifício. Uma pequena multidão já transitava pelas ruelas lamacentas do Distrito que, pelo terceiro ano consecutivo, sediava a Grande Feira Cultural.

Moça nos seus tenros 22 anos, Lídia era apaixonada por todo tipo de arte. Enquanto caminhava pelas ruas, esquivando-se desta ou daquela poça, e de um ou outro grupo de animados e tagarelas estudantes – alguns expondo quadros, outros, artesanatos – Lídia observava e absorvia tudo o que podia. Tímida e pouco vaidosa, quase sempre andava de cabeça baixa, mas seus olhos estavam sempre atentos. Grandes, castanhos, brilhantes e atentos! Apesar da pouca idade e da aparência frágil e insegura, era bastante dona de si e gostava de estar consigo mesma. Aliás, muitas vezes era assim que preferia: Vou muito bem sozinha, obrigada!

Tratou de procurar pelas bancas de livros, que geralmente ficam expostos sob as marquises de madeira, em varandas de armarinhos e bares. Ao finalmente conseguir atravessar a rua – por sorte sem ser pisoteada – encontrou o que queria. Seus olhos percorriam, afoitos, todas as capas dos mais de quarenta livros dispostos lado a lado no cavalete de madeira pintada de branco, até que uma delas lhe roubou a atenção. Na capa dura da brochura, lia-se: A verdade quase nua. Não era um livro muito robusto, mas seu conteúdo era, segundo sua própria análise, no mínimo excitante: uma coletânea de cartas, contos e poemas que, dizia a contracapa, seriam relatos da vida íntima da autora, apenas 10 anos mais vivida do que ela.

Enquanto lia trechos aleatórios da obra, mordia os lábios e lamentava, inconformada: Que grande perda foi, para a sensibilidade humana, o abandono do hábito de se escrever cartas a próprio punho… E de fazer reuniões após jantares e chás para recitar poemas, ler contos…! Entre um divagar e outro acerca destas felizes práticas de tempos passados, tirou os olhos do livro e os ergueu à multidão na rua. Com o olhar perdido, via embaçado mar de rostos que, devagar, ganhava foco. Após alguns segundos, seus olhos atraídos feito ímã a metal, a fizeram avistar, nitidamente, aquele pelo qual ela não esperava (e esperava!) encontrar por lá. Aquele rosto do qual se despediu tão dolorosamente e cujo dono tanto afeto despertou sem que nunca pudesse suspeitar. Será mesmo possível? – Lídia tremia.

Apesar dos muitos meses passados entre esta e a última vez que o vira, todos os seus sentidos o reconheceram prontamente! Não havia como esquecer aqueles olhos, nem muito menos ignorar aquela vibração, aquela dúbia sensação de torpor e alerta, de alma saindo pelos poros, de gelo pelo corpo. Um frio tão intenso, capaz de queimar e enrubescer a face alva de Lídia, ao passo em que suas pernas perdiam a força e seus lábios se abriam no mais sincero e involuntário dos sorrisos. Quase não se lembrou de onde o conhecia, tamanha a vertigem! Mas entre os milhares de pensamentos que lhe iam e vinham, enquanto tentava compreender (e controlar) o sorriso e o bambear dos joelhos, estava a memória de que o conhecera através do mesmo casal de amigos com quem viera ao Distrito. Thomas! – exclamou ao recordar o nome do moço que, naquele momento, a obrigava a assistir o intenso azul de seus olhos emprestar cor ao mar de rostos.

Liah Capucho

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II. Sobre Thomas, a Feira e a pia crença no mero acaso.

Sina Sabiá

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Ilustração: Otto Kim (@ottokim)

Tudo dói

A mais dura penitência de Deus aos habitantes da Terra: o convívio

Sem isso, não teríamos de atuar, ou aturar

Não sentiríamos falta, ou pesar

Não seríamos sós, ou amigos

Não criaríamos expectativas, nem fantasias

Grande desafio!

Passarinho no ninho, tendo que voar

Sentir que tudo ofusca, nada busca

Ou busca sem sentir

De fato, tudo dói!

Escolher é difícil

Mas somos obrigados a

Triste é saber que não se pode escolher viver sem dor

Pobres de nós, que não somos queridos

Pobres de nós, que estamos sempre feridos

Pobres dos iludidos!

Mas que mal há?

Convivência é sobrevivência

E a vivência?

Viver é estar, é presenciar

Pobre do passarinho, que deixou sua alma no ninho

Pobre do passarinho, que continua buscando abrigo

Pobre do passarinho: lhe faltou o ar.

Por Liah Capucho (e seu sabiá)

Escrito em 24 de julho de 2012.

Eu não fumo, João.

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Fotografia: Stephen McMennamy (@smcmennamy)

 

Por volta das 22:00 hs, o moço chegou ao botequim. Olhos grandes e escuros, combinando com seus cabelos encaracolados e contrastando com a alvura de sua pele. Composição melodiosa, não passa despercebida. Riso frouxo, largo. Andar despreocupado. Pediu um copo para se servir da cerveja posta na mesa ao lado e sentou-se, entre conhecidos de conhecidos. Conversava suavemente, quase com preguiça. Transmitia um sossego tão grande na voz que nem o mais sensível dos homens poderia supor o que realmente se passava em seu âmago.

 Entre os amigos, o mais querido! É possível escutar seu nome sendo chamado quase todo o tempo, entre o tilintar dos copos e o zum zum zum de vozes no estabelecimento. É um tal de João pra cá, João pra lá… Quisera João que assim fosse entre os seus, e que sua casa fosse um lugar onde gostasse de estar. Sentindo-se como aquele bibelô de louça que sua avó insiste em manter na estante, ao lado da TV (e que ninguém se lembra de desempoeirar), o moço tem procurado distração e, principalmente, exaustão pelos bares da cidade. Assim, quando de volta à sua cama, não passaria horas encarando o teto descascado, lamentando o fato de que ninguém pareceu escutar o barulho que “acidentalmente” causou ao entrar, e muito menos reparar no avançado da hora ou nas circunstâncias de seu retorno.

 Mas, cidade pequena… Sabe como é. Os bares fecham cedo, e os notívagos não têm muita opção a não ser comprar todas as garrafas que puderem carregar, e irem sentar-se em alguma pracinha para jogar conversa fora enquanto esforçam-se para exterminar o que restou da sobriedade. Ali, se reúnem homens e mulheres que, independentemente de conhecerem-se ou não, se reconhecem, uns nos outros, como seres que pulsam aos sons e cheiros da noite, que os abraça e os fazem sentir pertencentes ao Mundo.

Sentado no banco ao lado, com seu riso frouxo e despreocupado, embalado pelo som do mesmo violão que eu ali admirava, João apalpava todos os bolsos de suas vestes, à procura de algo que fizesse o acompanhamento perfeito à melodia, à bebida e à madrugada que o entorpeciam. Sem sucesso, apenas segurou o baseado entre os dedos da mão direita, fitou-me com o olhar profundo de seus olhos negros pela primeira vez, e me fez um gesto com a esquerda. Pedia-me um isqueiro. Sorri, imergi por alguns segundos naquela bela e jovem escuridão, e então balancei a cabeça, em negativa.

Liah Capucho